TEMA DA REDAÇÃO ENEM 2018: UMA ANÁLISE

Por Francisco Rufino

Acreditamos que o tema da redação do ENEM 2018 – “Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet” – apresentou-se desafiador e um tanto descaracterizado do que tradicionalmente é visto no texto da frase temática.

(*Professor concursado no Estado do Maranhão e Município de Teresina, ministra aulas de redação em cursinhos e preparatórios. Atualmente, é um dos responsáveis pelas redações e temas enviados ao Aplicativo CANA EDUCAÇÃO, além de compor a equipe de revisão itinerante no projeto PRE-ENEM SEDUC-PI)

  Nesse contexto, é comum que os candidatos esperassem um tema que focalizasse o lado social dos brasileiros, sobretudo, com foco em algum grupo de minoria como é costume dos eixos temáticos da prova de redação. É um fato que a frase-tema “espantou”, por alguns instantes, até mesmo professores pela ausência de expressões ou recortes específicos como “no Brasil”, “desafios”, “combate” e etc, elementos rotineiros nas provas de redação desse certame. Embora formatação tradicional tenha sido alterada, convenhamos que o termo “manipulação” manteve a ideia de que há uma situação problema o que obriga o candidato a refletir sobre essa problemática de sermos manipulados pelo controle de dados na rede de computadores – a internet. 

   Convém ressaltar que foram os textos motivadores que decidiram que caminho o candidato devia tomar no percurso do texto para não resvalar simplesmente por questões já esperadas como “as fake news”, temática inclusive colocada por nós no Aplicativo Canal Educação do Governo do Estado do Piauí, ou mesmo exposição ou invasão de privacidade nas redes sociais cuja proposta já foi pauta no Enem de 2011. Tais quesitos não estão distantes da pauta temática, pois podem se constituir um dos variados argumentos complementares, porém não podem se constituírem o foco da discussão global do texto. Outro fator preponderante para se conquistar uma boa nota junto à banca, é o aluno dominar alguns conceitos cuja exposição desses está mais contundente no primeiro texto motivador como é o caso dos “algoritmos” que são sistemas de filtragens e controle de dados feitos mediante o que o usuário faz ou deixa de fazer, acessa ou deixa de acessar na rede. Além dos “algoritmos” temos os demais conceitos como os “trending Topics” e as “bolhas sociais”. Essas últimas expressões, se bem compreendidas, facilitam e ajudam “oxigenar” bastante a parte do desenvolvimento textual do aluno.

  Vale ressaltar que é uma prova cujo último parágrafo exige uma intervenção social proposta pelo candidato com resolução do problema posto. Nesse sentido, é viável que se recorra à questão legislativa, que desde 2014, há um marco civil que reordena todas as questões que envolvem o campo virtual, seja do usuário para com a rede, seja a rede para com o usuário. Uma boa proposta de invenção seria o candidato dizer que o próprio Governo devia acompanhar mais de perto qualquer manipulação, aplicando com maior rigor essa Lei promulgada em 214. Ademais, as empresas que somam vultosas cifras com o marketing virtual sejam co-responsáveis pelo que acontece aos usuários dentro e fora da rede mundial de computadores. 

   Por fim, avaliamos que seja um tema atual e bastante profilático contra o consumo exacerbado proposto pelo capitalismo e auto reflexivo acerca das ideologias de massa ou mesmo contra o consumo exagerado de imagens. Se analisarmos bem, veremos que o tema é na verdade um alerta quanto a essa questão do livre arbítrio que todos dizer ter ou exercer. Nesse sentido,
observamos que o que há, por trás dessa grande mídia, é um “campo minado” e manipulatório, fato bem exposto por um dos textos motivadores da prova: “… estamos caminhando para um estágio em que é a máquina que decide qual notícia deve ou não ser lida”. Nesse contexto, acrescentamos a isso a problemática de que os internautas não consomem somente idéias, mas também produtos. E quanto mais nos expomos para as redes de computadores quem somos, maior será a perspicácia desse sistema de algoritmos criar artimanhas para nos prender em um consumo desenfreado e manipular nossas decisões e comportamentos.

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