Dica de Leitura - Livro Ensaio sobre a cegueira

O livro consegue manter facilmente a atenção pelos desafios de sobrevivência, superação e organização social da capacidade humana mediante uma inesperada adversidade. A cegueira total da população, com apenas uma exceção, possibilita refletir sobre as decisões pela perspectiva pessoal e como isso é visto (sem trocadilho) por um terceiro.

Acho que a maior qualidade do Saramago foi estimular justamente isso: você consegue tomar decisões, mas consegue imaginar o quanto isso influência ou impacta um terceiro?

Quanto a narrativa: os diálogos são bastante vivos, a forma utilizada pareceu muito com uma transcrição de uma conversa informal, com interrupções e raciocínios nitidamente incompletos ou redundantes.

O fato de não nomear os personagens, mas utilizar dos atributos físicos, acessórios pessoais, estado civil, dentre outras classificações para identificá-los, é bastante interessante. Normalmente, estamos acostumados a dar nome até para o papagaio! Foi uma abordagem diferente e que funcionou muito bem!

 

José Saramago tem um estilo muito peculiar, algo que pode assustar inicialmente. Não há travessões. O discurso direto e indireto se misturam. Frases longas são esculpidas com verve poética. Há ironia e humor negro. E assim que nos acostumamos com o jeito de Saramago escrever não queremos largar o livro, apesar dos horrores que nos aguardam.

A perda da visão em Ensaio Sobre a Cegueira mostra o que os seres humanos são capazes de fazer. Para o bem e para o mal. Em um momento presenciamos uma horrível extorsão e em outro vemos pessoas se sacrificando em prol do próximo.

Com a progressão da cegueira, o mundo entra em colapso. Saramago detalha a situação caótica que toma conta da cidade. A comida torna-se escassa, a água está desaparecendo, tomar banho é um luxo, a sujeira transborda em diversos lugares. Não há muitas esperanças e sobram questionamentos.

Ensaio Sobre a Cegueira não é apenas uma história criativa repleta de momentos memoráveis. É também uma alegoria brilhantemente escrita por um gênio da literatura. Não é à toa que na epígrafe está escrito: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”.

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