Dica de Série – Os Inocentes

Sutileza é a palavra-chave quando se trata de Os Inocentes. A nova série britânica da Netflix utiliza o sobrenatural e a perspectiva mística de super-poderes para tratar de um assunto sensível para a adolescência: a busca por identidade. Não há motivos para duvidar da capacidade de conquista desta trama, mas ela acaba sendo um desafio imposto pelo ritmo lento que não justifica oito episódios.

A série traz os novatos Sorcha Groundsell e Percelle Ascott como os adolescentes June McDaniel e Harry Polk. Quando ela está prestes a completar 16 anos, o casal apaixonado leva às últimas consequências os planos de fugirem de seus lares opressores para viver este romance utópico, e saem em uma viagem sem rumo e sem estratégias definidas.

Mas tão logo os dois conseguem dar este novo passo, algo estranho toma conta de June. Enquanto são perseguidos por um homem misterioso que tenta a todo custo capturá-la, descobrem que ela na verdade é uma shape-shifter — ou seja, possui a capacidade de assumir a forma física de outras pessoas. Sem entender exatamente como ou por que ela possui esta habilidade, June e Harry precisam aprender a lidar com a confiança que sentem (ou não) em um e outro, e com a tomada de decisões sérias que podem levar a resultados catastróficos.

Do outro lado desta história, o professor Halvorson (Guy Pearce) controla o Sanctum, uma espécie de culto com outras mulheres que possuem as mesmas habilidades que June — entre elas está a própria mãe da garota, desaparecida há três anos. Ele quer levá-la para lá, com a promessa de curá-la e explicar as origens de suas capacidades transmórficas. O principal mistério gira exatamente em torno deste núcleo específico e dos objetivos do professor tanto para estas mulheres quanto para a mais jovem.

Apesar da premissa adolescente que fica em uma espécie de lugar-comum da TV voltada para públicos jovens, a série criada por Simon Duric e Hania Elkington se difere pelo tom que estabelece para a trama. Praticamente toda a história se ambienta no interior da Inglaterra, e o clima bucólico dos cenários dá vazão para um desenvolvimento mais lento e contemplativo.

Ter um ritmo lento não é necessariamente um problema. Trata-se de uma estratégia narrativa que, quando usada corretamente, serve para conferir um olhar mais detalhado para a psique das personagens. Aqui, funciona para transformar a narrativa que se pauta no fantástico em algo mais realista. Grande parte do mérito de Os Inocentes está exatamente na construção dos personagens que não é idealizada. A maneira como eles reagem ao que estão vivendo é condizente — eles não sabem o que fazer, e quem saberia? Mas toda a primeira temporada funciona primordialmente para estabelecer o universo e os personagens à base de muita exposição narrativa, o que é enfurecedor.

A base realista da série tem seus propósitos. As transformações de June, por exemplo, ficam tão em segundo plano que dificilmente são a parte principal dos episódios. É claro que estes momentos estão envolvidos nos conflitos, mas não há, por exemplo, grandes efeitos visuais para quando ela assume o corpo de outra pessoa. A habilidade funciona mais como um artifício de roteiro, uma metáfora para tratar da busca pela identidade durante a adolescência. Visualmente os momentos em que ela está em outros corpos são bem concebidos, e os jogos de espelho sempre forçam diálogos entre ela e Harry — diálogos clichês e repetitivos, mas justificados dentro do próprio contexto da série de ser mais focada no relacionamento entre eles do que na fantasia.

Com um alvo óbvio sendo o público jovem, Os Inocentes é imatura mesmo no desenvolvimento da relação entre Harry e June. Desde o início, o amor idealista que sentem um pelo outro é colocado como algo estabelecido, sem que o espectador tenha tempo de conhecê-los individualmente ou sequer entender o que veem um no outro. Por isso, conta muito a favor da série a própria atuação da dupla (Groundsell, aliás, é muito mais convincente que Ascott) e a boa química entre ambos.

Aqueles, portanto, que passarem pelos exaustivos primeiros episódios, vão encontrar motivos para desejar uma segunda temporada. Com toda a sua lentidão exagerada, a primeira temporada cumpre o seu objetivo de transformar estes inocentes em algo a mais. Resta, agora, aparar as arestas e mergulhar mais fundo nos traumas que imprimiu.

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