Dica de Leitura – Mary Poppins – P.L. Travers

É muito provável que em algum momento de sua vida você tenha tido contato com a história de Mary Poppins. Mais provável ainda que tenha sido através do filme Disney lançado em 1964. Mas você sabia que ele é na verdade uma adaptação literária da série de livros homônima da australiana P.L. Travers? Se não sabia, não tem mais desculpas para não saber. No final do ano passado a editora Zahar lançou uma edição comentada lindíssima de Mary Poppins, contendo ilustrações originais, uma entrevista com a autora e um prefácio contando um pouco sobre sua jornada de vida.

Na história acompanhamos a vida da família Banks, uma família comum e sem muito luxo, moradora da Rua das Cerejeiras número 17. Composta pelo atarefado banqueiro Sr. Banks, a ocupada mãe Sra. Banks, os filhos Jane, Michael e os gêmeos, e os três empregados da casa, após a demissão de mais uma babá eles se veem em uma situação complicada: precisam encontrar uma nova funcionária com urgência. Eis então que o vento muda e com ele surge a babá Mary Poppins na porta da casa desta família. Rígida, séria, compreensiva e preocupada com a aparência, ela irá conseguir o cargo, cuidar das crianças, impor disciplina e mudar a vida dos Banks.

A história é um clássico! Se você nunca tentou dizer um supercalifragilisticexpialidocious na vida, não sabe o que está perdendo. Mas a surpresa maior é descobrir que, por trás da série de livros “infantis” de sucesso, existe uma tão interessante mulher: a autora P.L. Travers, nascida na Austrália e que mais tarde se mudou para Londres, o que justifica sua “postura britânica”. Helen Groff (sim, seu nome verdadeiro) ainda criança viu sua família definhar com o vício de bebida de seu pai, o banqueiro Travers Groff, e o desespero de sua mãe com a situação, ocasionando até mesmo tentativas de suicídio que a própria garota evitou. Descobrimos então que Mary Poppins tem muito mais a ver com a vida da autora do que ela admite, e isso dá um tom muito especial à história.
A Disney tentou durante 20 anos comprar os direitos da personagem até que Travers enfim aceitasse. Muito disso se deu pela sua aversão a animações e músicas (que particularmente é adorável!) vinculadas à sua história. A produção do filme sob sua supervisão foi uma tarefa árdua para a equipe americana, e no dia da estreia a autora foi vista aos prantos ao final do filme. Especula-se sobre o motivo do choro ser as mudanças feitas por Walt Disney em sua história, ou que pode ser devido a ter se emocionado com a redenção do pai da família Banks, o que lembrou seu próprio pai. Esta situação é abordada nesta edição da Zahar, e aconselho também a quem se interessar assistir o filme de 2014 “Walt nos bastidores de Mary Poppins” (Saving Mr. Banks) que está disponível na Netflix e aborda toda essa relutância de Travers na produção do filme.

Mas então vocês devem estar se perguntando: o filme é tão diferente assim do livro? É sim. Apesar da base da história ser a mesma, sua abordagem é bem diferente. Enquanto a Mary Poppins do filme é doce, canta, sorri e utiliza a imaginação para ocultar as dificuldades da vida dos garotos, a babá do livro é mais implacável, séria e competente. Apesar de demostrar preocupação e amor pelos garotos, ela é mais seca e objetiva, exige mais suas condições de trabalho… é um pouco menos mágica (apesar de também ser carregada pelo vento e trazer coisas enormes em uma bolsa pequena de tapete). Eu não vou explicar muito o porquê da diferença mas digo a vocês que é bem interessante, então aconselho muito que leiam o livro e assistam o filme na Netflix. Vale muito a pena! P.L. Traves escreveu ao todo 8 livros sobre a babá que surge com a mudança do tempo e vai embora quando este vira novamente.

Outra mudança importante entre livro/filme foi a respeito da Sra Banks, a mãe dos garotos. No livro ela é uma dona de casa muito ocupada com a administração da casa e por isso necessita de uma babá. Mas Walt Disney não achou uma boa justificativa e colocou a personagem no filme como uma sufragista (membro do grupo feminino que lutou pelo direito de voto para as mulheres). Essa característica dividiu opiniões pois, ao mesmo tempo em que foi inserida uma luta importante e uma referência de peso a Emmeline Pankhurst (membro de grande destaque na revolução sufragista) em sua música de apresentação no começo do filme, a personagem acabou ficando caricata e um pouco superficial, retratando uma elite que talvez não estivesse tão assim por dentro do que estava ocorrendo enquanto mulheres estavam sofrendo nas ruas com essa mesma luta (a quem se interessar, assistam “As Sufragistas” na Netflix com a maravilhosa Meryl Streep no papel de Emmeline). 

Tentamos passar para vocês um pouco do universo de Mary Poppins. Sua complexidade e mistura entre real e imaginário são encantadoras e aconselho muito que façam parte disso. E tem mais, como não querer incluir essa edição tão linda, e em capa dura, na estante? Será lançado em 2019 um novo filme Disney de Mary Poppins, uma continuação com a atriz Emily Blunt no papel principal. Vamos então aguardar como será a nova história e imaginar o que Travers pensaria disso…

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