Dica de Leitura – A conciência de Zeno, de Italo Svevo

O romance começa com o prefácio de um médico, Dr. S, que se identifica como o médico que é citado no livro diversas vezes de forma pouco elogiosa. Ele conta que sugeriu ao seu paciente nas sessões de psicanálise que escrevesse uma autobiografia como parte do seu tratamento e que o resultado só não foi melhor porque o paciente curou-se. E o médico acrescenta “publico-as (as memórias do paciente) por vingança e espero que o autor se aborreça. Seja dito, porém, que estou pronto a dividir com ele os direitos autorais desta publicação, desde que ele reinicie o tratamento”. Esse médico chantagista e esse prefácio cômico já dão início ao tom de toda leitura de A consciência de Zeno.

A relação com a psicanálise é, como fica claro desde o prefácio, muito forte. O título fala da “consciência de Zeno”, mas o romance caminha mais para o “inconsciente de Zeno”. Então, conforme o próprio Zeno vai narrando sua vida, como roubava dinheiro do pai para comprar cigarros, como o pai o achava um avoado, como numa mesma noite pediu três moças em casamento, como ele próprio afastou a amante de si sem querer, como ele e o cunhado só faziam besteiras nos negócios e criaram prejuízos enormes, o leitor participa ativamente da interpretação de que maneira isso é real ou não, de que maneira suas atitudes eram conscientes ou inconscientes, como as relação interpessoais parecem muito mais complexas do que a maneira banal com que ele as descreve, etc. Não é um livro de realidade fixa, imutável, é um livro que precisa de um leitor ativo para duvidar das supostas “realidades” contadas por esse narrador.

Profundo nas questões que mobiliza, um final in-crí-vel, passível de inúmeras interpretações, muito cômico e bem-humorado. Svevo era muito amigo de James Joyce e, ainda que na Itália o livro tenha caído rapidamente no silêncio, fora dali o romance foi bem acolhido graças a Joyce que via em Svevo um dos grandes nomes da literatura moderna. E o Sr. Joyce tinha razão sobre muitas coisas.

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